Ap. 102, 03 de julho de 2017.

– a precificação valorativa me causa espantos! – gritou um economista, enquanto, eu fingia ler o jornal.

sempre me finjo de qualquer coisa para não ter que interagir com o ambiente, nessas horas, eu posso culpar todas as minhas doenças psicossomáticas – e até gosto de assustar os outros, confesso. afinal, a loucura é o maior repelente social que pode ser usado no cotidiano e isso é algo que ninguém poderá negar, pelo contrário, a aversão da sociedade por mim é algo que me diverte. como se fôssemos díspares químicos, polares versus apolares, nem sei.

mas o fato é: eu estava aguardando o ônibus, segurando meu pingado e o pão amanhecido, quando o economista entrou em completo delírio. gritava como se exigisse de nós uma resposta para a sua afirmação: a precificação valorativa me causa espantos. e o ponto é: a quem não causa puro espanto? não somente a precificação que pouco se correlaciona com os valores (usuais, práticos ou morais), mas sim, à nossa venda.

afinal, eu podia fingir superioridade e não me fazer de político. podia mais: afirmar pura aversão a tudo – e contemplar da minha inércia social, no entanto, ainda que inerte: eu estaria autenticamente só me vendendo. fingindo ser melhor, maior ou comprável pelo capital, mesmo ali – quieto e amedrontado – eu diria que sou superior. ou pior: pouco depois, quando terminasse meu copo matinal, iria me direcionar até uma agência de empregos e me vender – como um produto social, filho de pais e mães sem nomes, assim, tudo o que restaria de quem somos: é a venda, o poder de se tornar comerciável, memorável: alguém. o poder de se tornar: e n l o u q u e c e

qualquer um, mesmos os já loucos. esquizofrênicos, o poder é a pior manipulação mental que alguém poderia provar. assim, mesmo aqui, agora, eu continuo a estar perplexo e espantado com – a precificação valorativa. e a dúvida é: quem não está?

Ricky – 12h46, Cuiabá.

felicidade

– é saber que somente é feliz, aquele que crê no poder da clandestinidade… é tecer fios lentamente, aguardando o dia em que a peça será vestida por um ou uma multidão… um ou um milhão? e quem é que se importa, se no fim: somos só um singular de plurais todos. plurais singulares ao todo.

– ao todo somos um –

– um por todos –

assim, ainda que eu me desatine de loucura ou de amor, de forma que, pouco responda ao meu leitor – devemos nos questionar: o que é a tal da felicidade? quem é que é feliz? que espécie de sujeito rege os verbos da vida? ainda mais: apontaram – ó – lá do fundo, gritaram – aaa – que, por favor, felicidade é substantivo. mas o importante não é o nome e sim, o sujeito feliz.

então, novamente: voltamos ao fato de que somos todos um e a felicidade é uma soma só. danada de abstrações ilógicas, quem diria… e não há tabelas complementares nem dados ou registros que a nomeiem de ponta a ponta. felicidade é um estado de ser e só sabe quem é feliz, o sujeito só é sem grandes delongas existenciais.

– felicidade é um estado do ser – que ao realizar suas médias mensais, conclui: sou feliz. ainda que eu chore sozinho, desesperado, por alguns dias de pura escuridão. sou feliz, porque ser é estar numa montanha de altos e baixos sentimentais. assim, quando de manhãzinha, eu viro pro sujeito vizinho e esclareço: somos felizes, não há frase mais linda que poderíamos selar um relacionamento. qualquer que seja. que seja qualquer. seja qualquer que diga – sinceramente – quaisquer verdades sobre ser feliz.

Ap 102, 23h17 (abril 2016)

hoje todos me olharam: e eu enlouqueci de novo. cismei em dizer que eles não me viam, mesmo que me encarassem de ponta a ponta, ainda que me elogiassem a beleza física, os olhos indefinidos – que variam do castanho ao verde – ou o sorriso – que eu finjo todas às noites enquanto trabalho. eles não me veem. e nem se dão conta disso. perguntam meu nome, telefone, rede social, endereço, cpf, ocupação. então: querem falar de política e do direito, quando na realidade, para o todo social: nem sequer existo, porque não me veem. e acreditem: para a sociedade, você só existe quando é visto. ainda assim, a falha nesse detalhe é que a imagem não necessariamente nos representa, dessa forma, nós não nos reduzimos ao corpo, às profissões ou às ocupações. na realidade, somos todos infinitos.

– vários corpos finitos que guardam imensidões em si. –

nossas almas nos transcendem ainda que não possamos tocá-las. nossas vozes são mais audíveis quando não dizemos, porque nosso silêncio é preenchido por milhares de pensamentos – que podem ter sido pensados por outras milhares de pessoas – que jamais conheceremos. ainda assim: elas não precisam de nós para que existam, independem do outro e de suas percepções ou julgamentos. então, repito: e teimo que os outros não me veem e quando elogiam, estão elogiando a superfície de um infinito muito maior que meus 1.88. ainda que me olhem, eles não conseguem verdadeiramente me enxergar como sou, e pouco provavelmente, alguém será capaz de tal façanha… porque nós mudamos, e eu não sou fixo… a verdade é que dificilmente alguém nos verá plenamente. assim, persistimos em nos reduzir somente à imagem ou ao corpo.

ricky – brasília – 2016

Enquanto há vida, há esperança:

– Há vida! – vociferou, simultaneamente: proliferou-se.

e como é que se prolifera nesse mundo de angústias tão profundas e de dores que nos assombram ao raiar do dia? como é que ousam os loucos, todos, tolos (?) se proliferar num mundo em que atualmente a esperança é tão pequena e nossos sonhos ainda menores… ou seriam – ironicamente – maiores?

– é que eu gosto de olhar o céu e as estrelas, mas detesto prender os pés no chão… mesmo quando a areia me leva devagarinho para um estado de pura contemplação, quem é que me prenderá? se ainda que meus pés estejam fixados ao chão, consigo me manter livre para movimentá-los em qualquer direção.

alguns quaisquer de esperanças que me fazem sonhar.

– e proliferou-se –

– nascendo-se, assim, Alice: fruto de um sonhador sem calçados de luxo, sem casa e sem conceitos – o único que pudera ensinar a ela é o da felicidade e o da esperança.

”enquanto há vida, há esperança”

a vida é a esperança.

A manhã seguinte

Cecília dormira por quase 48h – e antes que acusem-na de pura e somente procrastinação barata, obrigo-me a defendê-la: não é Cecília que está relutante, mas o mundo que está pesaroso demais e a reluta diariamente!

– ora essa! (explicita um dos meus leitores! como ousa o narrador defender o personagem que nem sequer nos apresentou dignamente… como pode avançar os sinais literários? a piedade vem da semelhança – e pasmem – do egoísmo puro… mas não aquele miscigenado com todos os dilemas pós- modernos… a pureza vem da inconsequência de pensarmos primeiro em nós: sempre nós. quando alguém diz que avançou na vida, você já se questiona e se debruça – e eu? quantos passos a frente estou? ou pior, atrás? para trás… e de repente, vê-se como qualquer resquício do passado e de antemão: dói-se. assim, defender o outro é nada mais do que defender a si! pois, sempre, vemos nossos espelhos aos redores dos indivíduos todos).

(Dessa forma, o narrador defende a si?! ou quem sabe, somente os espelhos das frustrações do Séc. XXI… E se o narrador apenas se defende, quem defenderá Cecília?)

– Ninguém há de me defender, pois, as defesas só são necessárias aos culpados ou aos frágeis… E não sou um nem outro! Defender-me-ei sozinha, do mesmo modo como viemos ao mundo… Sozinhos. E quem há de renegar os fatos? A solidão não tem beleza alguma, meramente, é utilizada como escape pelos românticos desmedidos. Desmedir também é um ponto de fuga, igual ao fato do primeiro parágrafo.

(E o diálogo sai dos travessões – !!! – )

(A personagem transgrediu o narrador)

Dormi por 48 horas, eis o fato! No entanto, não há nada de orgulhoso ou deplorável nesse meu retórico e paradoxo momento, porque nos flashbacks oníricos não pude controlar quem ali aparecia. Era como se eu fosse uma máquina – e estivesse contracenando com Chaplin em Tempos Modernos! – e estivesse condenada a seguir com o roteiro… Mesmo que aquilo me ferisse amargamente! Ó, como me dói não tomar as rédeas do ser – do meu ser – e naquele limbo fosse violada por todos os tempos verbais possíveis. Meu passado se personificava em rostos que não me atrevia a recordar… O presente sumira feito um apagão intenso… e o futuro era uma transposição de imagens do passado, sem qualquer incidência do presente, ausente de esperança; e quem é que acorda sem o poder da esperança? Dessa forma, permaneci por dois dias incapaz de me libertar da explosão de figuras pré-indicadas pelo narrador.

*  Enquanto, adormecia no seu estado de coma – sussurava: a manhã seguinte será de sol. Na manhã seguinte, eu serei minha narradora e não haverá script obrigatório. De amanhã em seguinte, eu acordarei.

(Na manhã seguinte:
O seguinte da manhã;
amanhã: segue           )